Resgate.
É impossível não citar essa arte tão
importante e fascinante quanto a de confeccionar um balão.
Desde criança quando muitos de nós ficávamos
correndo de chinelos de dedo ou até mesmo descalços
atrás dos marias-preta pelas ruas do bairro durante
as festas juninas, até os dias de hoje onde verdadeiros
mestres da arte de resgatar balões, a cada fim de
semana aumentam suas bancadas com balões de todos
os tamanhos e cores. A cada resgate, a aventura, adrenalina
e a história de cada um ficam marcados em nossa memória.
A arte de fabricar um balão é maravilhosa
mas para resgatar um balão deixa de ser maravilhosa
para ser fantástica. E nesse mundo são poucos
os artistas que conseguem seus feitos memoráveis
na busca de balões nos mais insólitos e distantes
lugares. Poucos possuem esse dom e nesta edição
da Gazeta do Balão, trazemos a "turma dos Smurfs",
mais conhecida por USM ou União São Mateus.
Uma grande, tanto na quantidade de integrantes, quanto no
talento de seus destemíveis integrantes. Verdadeiros
caçadores de balões, que resgataram balões
por todos os lugares possíveis e impossíveis
em 07 anos histórias. Essa foi uma entrevista que
mostra muito o que realmente é um resgate e também
podemos sentir o amor que esta turma tem pelo balão,
situações que, por vários momentos
nos emocionou. Com vocês: União São
Mateus
GB: Como de costume, a primeira e básica pergunta:
como surgiu a turma?
USM: A USM surgiu da união de algumas turmas
aqui de São Mateus. Ainda mesmo sem o nome de USM,
esta união já existia, um dando uma força
para o outro nos resgates, como Jhonny, Luiz e o Marola.
Haviam na época, umas 07 turmas: Spinne, Comédia,
Arte de Voar, Dragões do Imperador, Delta, Livre
para Voar e Dragões da Paranóia. Como uma
ajudava a outra nos resgates, surgiu a idéia de formar
uma turma só de resgate. Assim surgiu a USM, tendo hoje,
mais de 70 integrantes. Temos integrantes não só
em São Mateus, mas também em Poá, Suzano,
na Zona Norte, em Santo André, em vários bairros
da Zona Leste e até em Itanhaém, no litoral.
USM: Quais foram as dificuldades e alegrias começo
da turma?
GB: No começo, o mais difícil foi
mostrar que a união iria fortalecer. Nossa idéia
era que todo balão que descesse em Sáo Mateus
ou em outro lugar que nossa turma chegasse, não
fosse destruído, pois alguns anos atrás,
quando a gente pegava uma balão, o pessoal tomava
da gente, mesmo na nossa área. O pessoal tomava
o balão, davam tapas na cara da gente e mandava
a gente sair fora. Formos crescendo e continuou a mesma
coisa. Por isso, resolvemos nos uniar e não deixar
isso acontecer mais. A Alegria foi ver todo mundo uniformizado,
um monte de camisas azuis indo atrás de balão.
Eram carreatas na Via Dutra, na Dom Pedro, Indio Tibiriça.
Um dos primeiros balões que pegamos foi um 8x8
noturno da Emenda, dentro do Canindé. Tinha
muita gente, ganhamos ele no sorteio.
GB: Por quê a USM tem fama de encrenqueira?
USM: Não é que somos encrenqueiros.
Apenas batemos de igual para igual. É como aquela
história de tratar do mesmo jeito que nos tratam.
Independente disso, a gente se uniu para fazer a diferença
e também pelo fato de organizarmos o resgate. Quem
quer dar uma de esperto, com a gente não funciona.
Quem chegar atrasado, com a USM no resgate, não
vai entrar no sorteio mesmo. A gente chega no balão
e gosta de impor respeito. Como disse, sempre tem aquele
cara que chega atrasado ou aqueles quem querem colocar
os nomes de todos da turma dele no sorteio. Sempre corrigimos
estes defeitos, coisa que ninguem tinha feito e pessoal
acha que somos encrenqueiros pelo fato de corrigir o erro
dos outros. Muitos não tem coragem de fazer, mas
nós temos. Por isso nossa fama.
GB: Quais foram os resgates que marcaram a turma?
USM: Foram tantos. Lembro de um balão de
12 metros com armação que desceu aqui no
palanque.Chegamos sozinhos, entramos numa favela em 3
motos e o carro do Dri. Quando estávamos baixando
o baláo, chegaram uns caras de carro dando cavalo
de pau e dando tiros na gente. Achamos que iriamos morrer.
Fizeram a gente de refém, falaram que iriam nos
matar, ficavam apontando a arma na nossa cara. Do lado
do Dri tinha um cara que teve os dentes quebrados numa
briga num resgate de balão e por isso, tinha bronca
de balão e baloeiros pois ele apanhou sem ter culpa.
Voltando a história, eles colocaram a gente no
chão e davam tiros pro alto. Como estávamos
no chão, pensávamos que, a cada tiro, eles
tinham matado um de nós. Nossa sorte foi que um
dos caras, reconheceu o Dri e, na "idéia",
eles nos liberaram. Outro resgate marcante foi do pião
de 40 metros da Amigos da Onça. Eu e o Dri chegamos
atrasados, bem na hora da briga com a Alegria. O motivo
dessa briga foi por quê esse cara da Alegria chegou
atrasado e queria entrar no sorteio, sendo que já
havia um integrante da turma dele junto com a gente e
a galera da Vamo q Vamo. Isso é passado, somos
amigos e esse resgate marcou pela emoção
em resgatar um balão desse tamanho, coisa que eu
sonhava desde pequeno.
GB: Qual a importância das turmas de resgate
no meio do balão?
USM: Todas as turmas têm que se conscientizar
que o balão tem que ser resgatado inteiro, e este
é o fundamento de ter uma turma de resgate. Pegar
o balão inteiro para poder soltar ele de novo.
A beleza do balão não é soltar ele
só uma vez e sim várias vezes, quantas forem
possíveis e infelizmente, nem sempre as coisas
estão partindo por este lado. Tem gente que vai
só pra levar o boca, engates, guais, fogos falhados,
etc.
GB: E se o balão cair em casas, como é
que fica?
USM: É inevitável. A gente invade
mesmo. Caso houver danos causados por integrantes da nossa
turma, a gente paga os prejuízos. Já arrumamos
bastantes telhados, pagamos cadeados e até portões
já arrumamos. Também já fui preso
em resgate e numa oportunidade meio infeliz, o telhado
quebrou e cai em cima da cama de um cara, bem em cima
da mulher dele (Risos)
GB: Porquê o slogam: Odiados por muitos, respeitado por todos? Essa
é uma simples frase ou um dilema, uma filosofia?
USM: É nossa filosofia: Ir pra baixo do
balão e pegar. Preservar no máximo, a nossa
união e sempre preservar o balão. Mesmo
que a gente não chegue no baláo, procuramos
ajudar e organizar os resgates. Todos buscamos isso. Eu
sou novo nisso, tenho 7 anos apenas, e o que mais me chama
a atenção na USM é a uniao. A USM
é uma irmandade, uma familia e estamos sempre juntos,
não só nos balões, mas nos churrascos,
baladas e até no futebol.
GB: Qual o maior problema hoje da USM?
USM: É a parte financeira, muito balão
e pouco dinheiro, mas voltamos com as mensalidades que
provavelmente vai melhorar a situação. Quem
pode
ajudar, paga. Quem não pode pagar, ajuda no trabalho.
GB: Qual
a vantagem de soltar apenas balões resgatados?
USM: Na verdade, até fazemos balões.
Temos um 18 pra fazer em comemoração aos
7 anos de turma, só não decidimos se vai
com armação ou bandeira. Gostamos muito
de balão e damos preferência aos resgates.
Para nós, o desafio é chegar primeiro no
balão, pegar ele inteiro e soltar ele como se fosse
novo, as vezes até melhor que a soltura anterior.
A diferença é que, algumas turmas, quando
soltam balões resgatados, não pensam assim.
Tem gente que solta balão resgatado de qualquer
jeito, as vezes com nada embaixo, se livram do balão.
GB: Qual foi o dia que a USM, pegou mais balões?
USM: Foi no final de 2006. Pegamos 02 balões
de 16 metros e um de 18. Também teve uma noite
que pegamos 05 balões de um festival. Entre os
balões que temos guardado, temos um modelado de
24m, outro de 20m, o truff de 25m da Iluminar, o Pião
de 24m da Prisma, o Modelado de 18m da Arte Enigma, o
Lapidado de 17m da Monte Magno e tantos outros além
de muitas bandeiras.
GB: Nos conte a história do bagdá da ACME que foi roubada
pelos índios
USM: Essa bagdá subiu de Ipelândia
e tava indo em direcao ao mar. Por isso, muitos baloeiros
desistiram mas nós continuamos. Ele até
foi pro mar, mas voltou para dentro da serra, e caiu em
uma tribo de indios em Boracéia. Ele caiu em cima
de árvores. Subimos nela pra retirar o balão
e os índios não gostaram. Comecaram a atirar
pedras na gente para nos derrubar da árvore. Tiramos
o balão, levamos pra perto do carro e fomos tirar
a bandeira. Quando voltamos, os indios tinham levado o
balão. Apenas um deles falava português e
depois de muita conversa, tivemos que pagar 120,00 para
podermos levar o balão embora. Um deles pegou o
tênis de um amigo nosso e queria R$ 15,00 para devolvê-lo.
Pagamos também, mesmo sabendo que o tenis era falsificado
e valia R$ 10,00. Fazer o quê, né? Sorte
do índio.
GB: Um dos maiores balões que resgataram
foi o 15x15 da Jurema. Como foi esse resgate?
USM: Esse balão apagou no alto, estávamos
em Biritiba Mirim na mata procurando o balão quando
vimos um vulto. Era o balão. Quando estávamos
chegando perto, o balão pegou fogo e os fogos que
ficaram nas fogueteiras acenderam e foram pra cima da
gente. Pegamos só a boca, apagamos o fogo e quando
estávamos indo embora, a polícia chegou
e o Marola ficou no mato com a boca enquanto fomos para
o carro. Depois que a polícia nos revistou, pediram
pra gente ir embora e depois de uns quarenta minutos voltamos
lá e pegamos o Marola e a boca.
GB: Quanto, em média gastam num final de semana
atras de balão e qual o resgate mais longe que
a USM já foi?
USM: Gastamos em média de 80,00 a 100,00
Reais por carro, sem contar gasolina das motos e as multas,
apreensões de habilitação, além
do famoso cafezinho, quando necessário. Os resgates
mais longe que fomos foram pra Minas Gerais atrás
do Modelado de 34m da Sandú Mosaico e pro Espirito
Santo no modelado de 18m da Monte Magno.
GB: É verdade que pra resgatar o
balão da turma Duas Rodas vocês usaram um
GPS?
USM: É verdade. Foi realmente muito legal.
Nesse dia, o tempo estava fechado em São Paulo.
O Luiz e o Paulinho estavam em Mairiporã e ficaram
em cima de um morro pois sabiam que tinha balão
no alto e de lá podiam ver toda São Paulo.
De lá eles viram um balão descendo na zona
norte e com o GPS, calcularam e viram que o balão
estava em cima do Center Norte, na marginal Tietê.
O Luiz ligou para o Dri e foi dando as instruções.
Quando o Dri chegou no Center Norte, tava tudo fechado.
Após um tempo, o balão apareceu. Ele desceu
na favela da Zachi Narchi, dentro de uma quadra. A bandeira
ficou em cima dos prédios, foi a maior adrenalina.
Derrepente comecou a aparecer os moradores com paus, vassouras,
revólveres, enfim, fecharam a gente dentro da quadra
e tentamos liberar o baláo mas os cabrestos estavam
presos nas telas da quadra e o balão queimou. Roubaram
nossos celulares, carteiras, apanhamos de alguns mas liberaram
a gente e deixaram levar boca embora.
GB: Uma história engraçada?
USM: Foram tantas. Já corri atrás
de nuvem, da Lua. Lá na minha bancada tinha umas
telhas faltando e eu as vezes olhava pra ver alguma coisa
e vi esta nuvem e achei que era um balão. Falei
pro cara que estava comigo olhar também. Eu subia,
enfiava a cabeça no buraco, olhava o "balão",
saia e ele olhava e também e os dois achavam que
era um balão apagado. Fomos atrás e nada
do desgraçado do balão descer até
que paramos e vimos que não era um balão
e sim uma nuvem (Risos).
GB: A noite
ou de dia, qual o melhor horário?
USM: Tem um pessoal que gosta de painel outros
só vão atrás de bandeiras, outros
de fogueteiros, uns que viram a noite. Na maioria das
vezes, os solteiros vão a noite e os casados de
manhã.
GB: Muitos dizem que os balões foram proibidos
em 98, por causa dos índios dos resgates, o que
vocês dizem sobre isso?
USM: Eu torço para que os balões
nunca acabem e que possamos passar para os nossos filhos
assim como nossos pais passaram pra gente. Acreditamos
também, que tudo poderá acabar por causa
dos resgates. Já os indios, os baloeiros que destroem
balões e tudo que vêem pela frente, entendemos
que isso é por causa da adrenalina, mesmo que conversamos
e procuramos fazer a coisa certa e organizada, em toda
turma sempre tem um indio. O segredo é ter consciência
e auto-controle pra na hora da adrenalina se controlar.
Mas caso haja danos, como já disse, nós
pagamos.
GB: A USM tem fama de tomar balão. Isso realmente acontece?
USM: Já, e não foi só uma
vez, foram várias. Vamos citar uma aqui, que no
fundo nem foi "tomar" e sim furtar um balão.
Até aproveito a oportunidade para pedir desculpas
pra turma. Foi uma bagda, em Barreira Grande. O balão
caiu próximo de uma chácara, nós
entramos, atravessamos um brejo e só pegamos a
bandeira do balão. Já o pessoal que pegou
o balão, deixou ele guardado num galpão,
pois estavam de moto e saíram para buscar um carro.
Como já tinhamos pego a bandeira, reviramos todo
o galpão e achamos o balão guardado numa
carroça. Pegamos tudo e fomos embora.
GB: Algum integrante da USM já foi preso
em resgate?
USM: A maioria. Uma das vezes foi num pião
de 18 metros em Santa Branca. Quando estávamos
dobrando o balão, a polícia chegou e escondemos
ele no mato. Falamos pros policiais que o balão
tinha queimado, mas tinha um Tenente que não acreditou,
pois queria ver a boca amassada. A conversa piorou quando
acharam a filmadora com as imagens do resgate comprovando
que havíamos mentido. A policia pediu pra gente
pegar o balão no mato, fomos para o DP e assinamos.
Outro balão foi um modelado de 18 metros que caiu
em Santa Isabel. Depois que a tinhamos colocado o balão
no carro, a policia chegou e fomos novamente pro DP. Quando
estávamos sendo liberados, através do famoso
cafezinho, veio outro carro da polícia com uma
boca e eles pediram pra ver o tamanho do balão
que tinhamos no carro pra saber se a boca era dele. O
pior que era e um simples cafezinho, já virou um
banquete com pão, leite e frios. Fizemos a "vaquinha"
e até uma nota falsa de R$ 5,00 que eu tinha pego
de troco foi junto. O engraçado foi, que naquela
bagunça, me lembrei que tinha que pagar o pedagio
para voltar pra São Paulo e pedi R$ 5,00 para o
delegado. E entendeu, foi super compreensivo e me deu
uma nota de R$ 5,00. Quando fui ver era a maldita nota
falsa que eu tinha dado. Viu o que dá querer passar
a perna nos outros ? (Risos)
GB: Como
surgiu o apelido de Smurfs?
USM: Surgiu
num resgate de um 12x12 da Chugabum. tinha uns 70 integrantes
da USM no sorteio e mesmo assim não ganhamos o balão.
O Homero tirou o maior sarro da gente dizendo que mesmo
com 70 smurfs, não ganharam o balão. Como
no desenho animado os Smurfs são todos azuis e tem
um Smurf pra cada personalidade, acabamos aderindo como
mascote o Smurf, pois nossas camisas são azuis e
de uma certa forma, temos um Zangado, um Vovô, um
chato e muitos "tipos" de Smurfs na turma.
GB: O que a USM acha da internet e dos sites de balões?
USM: Achamos que é um meio de comunicação
entre os baloeiros. Com a internet, a gente entra na Gazeta
do Balão e vê os balões que subiram,
os que não vimos e até os balões que
subiram em outros estados, além das fotos antigas,
entrevistas e notícias.Hoje a internet é tudo.
GB: Qual o segredo do sucesso da USM nos resgates?
USM: A nossa união. Sempre visamos ser uma
familia, com a amizade prevalecendo sempre.
GB: Agradecimentos:
USM: Ao Bozzo e Dinho da Gazeta do Balão,
sendo que o Bozzo é um USM enrustido. Obrigado
à vocês por nos dar essa oportunidade de
poder falar e contar nossa história nestes 07 anos.
Também gostaríamos de mandar um abraço
para o amigo Glauco, que hoje não está mais
conosco. É isso aí. Odiados por muitos,
respeitado por todos esta é a USM e para quem não
acreditou na gente, estamos ai. Uns já tentaram
fazer e não conseguiram, hoje a gente é
a bola da vez. Muito Obrigado
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