GB - Nesta edição especial, vamos contar a
história de Francisco, O Chico Carioca, brasileiro,
nascido no Rio de Janeiro, 44 anos, que mora há
25 anos em Lisboa - Portugal e juntamente com amigos portugueses,
criou a Turma Lusa de Lisboa e nestes anos sempre vem
soltando seus balões aos céus portugueses.
Chico Carioca nos contou uma história muito legal,
além de expor suas opiniões a respeito dos
balões brasileiros, leis e segurança. Pra
começar, perguntei à ele como foram suas
origens e como começou sua paixão pelos
balões:
TL - Nasci na Tijuca, onde morei até os
meus 4 anos. Depois me mudei para o bairro de Piedade
e nos últimos anos no Brasil, morei em Quintino.
Com 4 anos, vi os primeiros balões no céu
e de princípio aquilo me metia medo quando via
os fogos noturnos. Com o passar do tempo, aquilo ficou
no sangue e um fascínio tremendo nasceu em mim.
No Bairro da Piedade soltavam pequenos balões e
eu passava horas e horas apreciando aqueles fantásticos
brilhos no céu. No começo da década
de 70 quando o Brasil se tornou Tri- campeão era
demais, o céu ficava forrado de balões e
eu encantado em vê-los. Quando morei em Quintino,
fui integrante da Turma do Barata, onde faziamos muitos
balões. Soltávamos tudo e todos. Desde balão
de recorte, com bandeira, com armação noturno,
fogueteiro, balão resgatado quando caía
no nosso bairro e o maior que fizemos, foi um 6x6 com
a armação do Fred Flintstone solto na festa
junina de 1980 realizada na nossa rua. Me lembro que todas
as ruas de acesso para Quintino nessa noite ficaram completamente
congestionadas, pois o trânsito parou para ver o
lançamento do balão.
GB - Como foi pra você essa mudança
de país e de cultura?
TL - Foi fácil. O que mais custou foi o clima,
pois aqui é bem mais frio e mais quente. Tem dias
que atinge temperaturas de mais de 40 graus, mas depois
a gente se acostuma. Do resto, Portugal tem suas tradições
como tem o Brasil e até certo ponto são
parecidas.
GB - Qual foi o primeiro balão você soltou
em Portugal?
TL - Quando cheguei, soube que nas cidades de Braga
e do Porto também soltavam balões por causa
das festas de São João. A maior festa de
São João é comemorada no Porto e
é até transmitida pela TV. Em certos momentos,
a TV mostrava e ainda mostra quando sobe um balão.
Na cidade do Porto posso afirmar que na noite de São
João são centenas de balões que sobem,
e só acaba de madrugada. Eu soltei o primeiro balão
logo no mês de junho de 1981, no norte de Portugal
na cidade de Paredes de Coura, foi um 2x2. Aqui em Lisboa,
a curiosidade é grande quando se vê, mas
não existe o interesse no balão como em
Porto e em Braga. Nestas cidades, o balão é
considerado símbolo e tradição do
povo, e além de terem pessoas que fazem os balões
para soltar, também pode-se comprar balões
prontos nas lojas de artesanato e até nos hipermercados,
além de ensinar nas escolas como se fazem balões.
GB - Qual é a posição do governo
sobre a soltura de balões? Aqui no Brasil, a prática
de soltar balões é considerada crime ambiental
e a lei é severa. Como você vê essa
situação em comparação entre
a visão do brasileiro de que balão é
perigoso e dos portugueses que vêem o balão
como um objeto da cultura popular?
TL - Olha, desde a década de 90 que Portugal
tem sido assolado por milhares de incêndios florestais
e eles, são em 99,9% de origem criminosa. É
certo que quando chega o verão, há a proibição
de soltar fogos de artificio em festas, fazer fogueiras
em matas e o balão também fica proibido.
Mas o certo é que, ou por interesses econômicos,
políticos ou até simplesmente por maldade,
esses incendios são criminosos. O balão
nem entra nessa porcentagem. No Porto, seria impossível
haver festa de São João sem balões.
Até hoje, eu nunca vi ou ouvi falar de alguém
que foi preso por ter provocado incêndios por causa
de balões. Nós, tentamos sempre soltar nossos
balões quando o vento está em direção
ao Rio Tejo, que parece mais um mar devido a sua extensão.
Isso por questões de segurança. O que eu
vejo no Brasil, sinceramente, é que cada vez mais,
os balões se tornam mais bonitos, são cada
vez mais, autênticas obras de arte e de grande perigo
também. Há certos tipos de balões
que as turmas deviam pensar melhor no que poderia acontecer
no caso de dar pro pior. Por exemplo: eu sou totalmente
contra os balões fogueteiros. Acho e sempre achei
que fogos tem que ficar de fora dos balões.
GB - Alguns baloeiros brasileiros acreditam que a
limitação do tamanho e carga dos balões
poderia ser a única salvação para
a liberação da prática de soltar
balões. O que você acha sobre isso?
TL - Há turmas que excedem o limite de peso
nos seus balões. Sou a favor de todo o tipo de
balão diurno ou noturno, mas não fogueteiro.
Pelo que vejo aí atualmente pela internet, estão
exagerando muito. É show quando tudo acontece perfeito,
agora quando dá problema com o balão, é
um verdadeiro cenário de terror, até porque
tudo é possível acontecer. Acho que o problema
do impacto negativo das autoridades no Brasil, deve-se
a falta de segurança quanto a alguns balões
que são lançados para o ar.
GB - Pra você, qual seria o tamanho ideal e
porquê?
TL - Não vou pelo lado do tamanho ideal, vou
sim pelo lado da segurança. No meu tempo quando
ainda estava aí no Brasil, os balões eram
bem mais inferiores na qualidade e segurança do
que são hoje. O problema é que quanto mais
qualidade tem, mais se tornam perigosos por culpa dos
próprios baloeiros, me referindo aos fogueteiros.
Acho que enquanto os baloeiros e as turmas não
apostarem na segurança, vamos ter sempre as autoridades
no nosso pé.
GB - O que você acha que é necessário
então para melhorar a situação aqui
no Brasil?
TL - Outro dia em conversa com um baloeiro de Curitiba
abordamos esse assunto e disse o seguinte:
As turmas e equipes no Brasil só vão ter
sucesso quando tiver união com as próprias
autoridades. Se os próprios baloeiros se tornarem
também uma espécie bombeiros de resgate.
Acho que se os bombeiros poderiam dar cursos de prevenção
e combate a incêndios, mas acho que em primeiro
lugar são os proprios baloeiros que devem se unir.
Digo isso pois nada melhor do que eu para abordar este
assunto, pois as minhas 2 paixões que tenho na
vida sempre foram as turmas de baloeiros e o Corpo de
Bombeiros, que são totalmente duas entidades opostas,
mas que tem muito haver uma com a outra. Aqui em Portugal,
faço parte também do Corpo de Bombeiros
Voluntários da cidade onde resido e continuo na
minha de que quando estas duas entidades aí no
Brasil chegarem a um acordo, estará resolvido o
problema. Agora em relação ao baloeiro como
é que fica? Acho que a coisa para se tornar mesmo
legal era assim: Quem quiser ser baloeiro tem de se integrar
numa equipe ou turma e ser registrado na mesma e haver
uma associação única que emglobasse
todas as turmas.
GB - Você acha que uma associação
entre os baloeiros e uma parceria com os Bombeiros resolveria
o problema?
TL - Não sei se resolveria o problema, mas
seria a chave mais forte para debater e resolver os problemas
com as autoridades. Iria impor respeito e responsabilidade.
Depois, mesmo com os bombeiros dando os cursos, acho que
são os baloeiros que tem que demonstrar esse interesse
e irem ao encontro deles.
Hoje em dia, a maioria das pessoas não sabem nem
usar um extintor, nem sabem aplicar primeiros socorros
em caso de haver alguma necessidade. Você já
imaginou o que aconteceria quando uma turma, caso haja
algum problema, tanto na soltura ou no resgate de um balão,
estiver treinada, preparada e munida de materiais de combate
a incêndios e de primeiros socorros? Com certeza
o baloeiro iria ser visto com outra imagem pela opinião
pública e autoridades.
GB - Aproveitando que você falou de Curitiba,
esta semana a policia acabou com uma revoada que seria
realizada pela T. Amizade de Curitiba. Entre várias
reportagens que sairam na imprensa, numa delas um policial
disse que os balões "profissionais" são
mais perigosos que os balões feitos por amadores.
Você concorda com isso?
TL - Não concordo. Um balão profissional
é sempre menos perigoso do que um amador. O problema
é que o profissional está abusando um pouco
da sua capacidade. Não está respeitando
os limites do balão quanto a carga e não
ao tamanho. É a mesma coisa quando dizemos que
o Ser Humano atualmente, está querendo superar
a Deus e aí acaba fazendo só burrices e
destruindo o planeta.
GB - Eu defendo uma idéia que numa possível
regulamentação, o balão para poder
ser solto, precisa ser avaliado antes de soltá-lo
e caso ele responda positivamente a vários quesitos
de segurança, ele receberá um selo de homologação
que seria uma espécie de alvará de soltura
e a turma só poderá solta-lo num local seguro,
pré estabelecido e longe de áreas residenciais.
Quanto ao resgate, caso hajam danos materiais ao local
onde ele cair, após um sorteio, a pessoa ou turma
que ficar com o balão ficaria responsável
pelo pagamento dos danos de onde o balão caiu caso
hajam, senão responderia criminalmente. O que você
acha disso?
TL - Concordo. Só assim as turmas e os balões
seriam mais seguros e organizados. Para o balão
deixar de ser ilegal, deveria haver mais informações
para as autoridades do dia, hora e lançamento do
balão. Assim saberíamos diferenciar quem
é um profissional, um baloeiro que sabe o que faz
e um amador. Aproveitando o assunto e falando de resgates,
no Brasil quando um balão cai e várias turmas
estão juntas, na maioria das vezes é feito
um sorteio entre elas para ver quem leva o balão.
Agora quando há danos nas casas ninguém
paga nada. Aí está um problema que depois
de haver um regulamento, esse negócio do sorteio
teria de acabar para bem do baloeiros. Acho que em vez
de sorteio teria que haver a palavra solidariedade e respeito
para com as outras turmas. Exemplo: A sua turma soltava
um balão e vocês vão atrás
no resgate, minha turma ou assistiu o lançamento
ou avistou o balão de longe e decide também
ir atrás. Ao chegar ao local onde o balão
caiu oferecia ajuda, mas depois de identificado o balão,
seria da posse da turma que o soltou. Se não houver
respeito nessa área entre ambas as turmas, não
vai haver nunca organização a ponto de se
obter a legalidade e conquistar definitivo o sim das autoridades.
A cabeça do baloeiro tem que mudar e para positivo.
GB - Mas você não acha que isso seria impossível?
Não pelo fato de devolver o balão para a
turma que o soltou, até porquê tem muita
gente que faz isso, mas nas situações em
que uma turma ou pessoa que pegou o balão não
queira devolver para a turma que o soltou?
TL - As turmas tem que chegar ao concenso que só
com união e organização através
de regulamentos que vão conseguir sucesso, isso
sem haver inveja.
GB - Como são os resgates em Portugal? Você
acompanha seus balões ou vai atras de algum balão
que vê no céu caindo?
TL - Aqui é bem diferente. Geralmente não
acompanho pois solto meus balões quando o vento
está em direção para o mar e não
há problemas. Quando vou soltar um balão,
antes solto uma pipa para ver se o vento está em
direção ao mar. Nesse caso o Rio Tejo. Como
eu solto sempre nas margens do rio, não tem condições
de resgatar o balão. As coisas aqui ainda estão
em fase primária, muito diferente aí do
Brasil que se mutiplicou por mil.
GB - Aproveitando o assunto, não só em Portugal,
mas na Argentina, Equador e em muitos outros países,
a prática de soltar balões vem se desenvolvendo.
Você acredita que, em algumas décadas, os
balões poderiam chegar aos níveis dos brasileiros
em tamanho e qualidade?
TL - Não. Acho que há coisas que só
o Brasil tem a capacidade de fazer e estar sempre na frente
de qualquer outro país. É assim no futebol,
no samba, no carnaval e também nos balões.
Mesmo que algum outro país chegasse daqui há
algumas décadas ao nivel do Brasil, no próprio
Brasil já estaria lançando balões
para fora da atmosfera, em busca do universo. Não
me pergunte como seria, nem com que materiais seriam utilizados
na construção deles, mas que seria algo
fantástico e inimaginável seria.
GB - Pra finalizar, o que significa pra vocês, a palavra
BALÃO?
TL - Quem viveu a época baloeira da qual eu
vivi, a palavra BALÃO para mim, significa o brinquedo
da minha infância, a arte presente na minha vida
atual e o sonho imortal que gostaria de encontrar quando
eu partir deste mundo e for para casa de Deus.
GB - Mensagem Final:
TL - Galera baloeira, organizem-se, se, mantenham-se
unidos pela nossa arte sem inveja e maldade, mas com solidariedade,
amizade e muita força de vontade de vencer. Obrigado
pela oportunidade e desejo muito sucesso a todos os baloeiros.
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