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Participaram dessa entrevista: Rogerio, Edson, Rogerio Loko e Steve.

GB - Mês de junho, festas juninas, semana de início de mais uma Copa do mundo e lá fui eu (Dinho) em direção de Santo André, cidade do Grande ABC para realizar mais uma entrevista para a GB. Após várias datas marcadas e canceladas por diversos motivos, consegui ir até lá nessa linda e ensolarada tarde de domingo. Quando cheguei em Santo André, me deparei com vários balões no céu o que me lembrou o começo dos anos 90, quando em tardes ensolaradas, sempre apareciam vários balões no céu. Como está no sangue, não resisti e fui atrás de um deles que estava caindo próximo de onde eu estava. Era um 3x3 com duas esteirinhas que caiu numa rua próxima, justo onde estava rolando uma festa junina. Aí você sabe, dezenas de moleques chegaram no balão e eu, um intruso na área, acabei perdendo o balão no sorteio pra um cara que mal sabe o que é balão. Justo é justo fazer o quê!!! Mas a tarde não estava perdida. Alguns kilômetros a frente, cheguei na sede desta turma, que assim como os balões da tarde de hoje, nos trouxe através desta excelente entrevista, aos bons tempos do balão, provando que ainda existem boêmios ou melhor, amantes da arte do balão. Ao decorrer da entrevista vocês verão que eles realmente gostam do que fazem. Para terem uma idéia, os irmãos Edson e Rogério, além de serem os responsáveis pela turma, confeccionam bandeiras em tecido. Agora por exemplo, com a Copa chegando, estão trabalhando dia e noite construindo bandeiras do Brasil de diversos tamanhos com excelente perfeição. Turma reunida, cervejas e muitas histórias, vamos começar o nosso bate papo. Como sempre fazemos nas nossas entrevistas, a primeira pergunta: como nasceu o grupo:

TC - (Edson) Dizer realmente quando cada um de nós começou a soltar balões fica difícil, pois desde criança, cada um de nós fazia e corria atrás dos balões juninos. A turma mesmo, começou em 1985, no dia do nascimento do Bruno (16/10), e logo após, soltamos um 5x5 letreiro em homenagem à ele. No começo a turma se chamava Baleão. Mais como havia uma turma em São Caetano com esse nome, só soltamos um balão e depois mudamos para Turma do Rocha, em homenagem à um amigo e, finalmente, através de um gibi da Hanna Barbera, escolhemos o nome "Caverna".

GB
- Como são divididas as tarefas entre os componentes?

TC
- Praticamente, não tem ninguém que faça apenas uma tarefa em comum. Na maioria das vezes, todos ajudam no que podem. Logicamente, algumas funções como fechamento do bico, são feitas pelo Edson, por ser mais experiente. No começo, cobrávamos mensalidade, mas acabou não dando certo.

GB - Um momento difícil...

TC
- (Edson) Em 1993, fizemos um 9x9 tema:"Fim dos Tempos" que deu tudo errado. Quase acabou com a turma. Tudo começou quando uma pessoa havia nos dito que, pelo fato de ter um demônio desenhado no balão, isso iria nos trazer azar. E trouxe mesmo. Quando fomos montar a armação, o Rogerio acabou brigando com um dos componentes. Depois, descobriram que uma das vítimas de um estuprador havia sido encontrada morta no mesmo campo onde íamos soltar o balão. Resumindo, deu tanta coisa errada que decidimos juntar tudo no meio do campo e colocar fogo. Tudo mesmo, desde o balão, Bucha, as lanternas, painel e antena. Devido à isto, a turma deu uma parada e só retornou 3 meses depois, numa nova bancada, com alguns componentes a menos, porém mais unidos, para o projeto dos nossos sonhos: O pião de 42m.

GB - Qual foi o primeiro balão?

TC
- Foi o 5x5 letreiro em homenagem ao Bruno, em 1985.

GB
- Quais os principais balões soltos por vocês nestes 20 anos?

TC
- Fica difícil se lembrar de todos, mas vamos lá: 5x5 letreiro "Bruno", 6x1x6 com armação em 1987 - nossa primeira armação, Pião de 14m com bandeira "John Lennon" solto no festival de Campo Grande no Rio em 88, 10x10 com fogos e bandeira do Raul Seixas em 89 (foto ao lado), 9x9 com bandeira em homenagem aos 5 anos de turma em 1990, Modelado de 10m com armação "Thundercats" em 1991, 8x8 com bandeira "Mundo da Ilusão", que ganhou a boca de ouro em São Paulo e ABC, Pião de 20m com bandeira "Heman" em 92, Bagdá de 12m que soltamos 2 vezes. Na primeira, ganhamos a boca de 92 no ABC. No resgate, o balão foi apreendido pela polícia e uma turma amiga nossa o "achou" no páteo de uma delegacia e nos devolveu. Achou mesmo. Talvez, naquele dia, estavam limpando a delegacia e deixaram o balão do lado de fora, aí se sabe né? Bem, voltando, soltamos o balão novamente em homenagem à um amigo da Turma do Colibri, do Rio de Janeiro. Em 93, o "maldito" 9x9 "Fim dos Tempos". Em 1995, nosso maior sonho, o pião de 42m, em homenagem aos 10 anos de turma, em 96 um pião de 24m com bandeira. Em 2000, um modelado de 12m comemorando os 15 anos de turma, um modelado de 16m tema "América Nazista" em 2004 e o Truffi de 20m no ano passado (2005), em homenagem aos 20 anos de turma.

GB
- Um balão sempre marca o grupo...

TC -
todos marcaram mas, sem dúvidas, 2 merecem ser lembrados: o 9x9 em 1993 9x9 "Fim dos Tempos", que depois de tudo de ruim que aconteceu, nos fortaleceu e nos uniu para fazer o pião de 42 metros. A idéia de contruir esse balão, nasceu quando vimos o pião de 42m verde e palha da Turma da Bruxa, do Rio em 1986. Antigamente, era dificílimo arrumar o molde. Só conseguimos em 1993, quando conhecemos o Tião da Turma da Bruxa na festa de entrega da boca de ouro do ABC de 1992. Ele nos arrumou o molde original, idêntico ao seu pião, solto em 1986. Quando voltamos após a tragédia do 9x9 em 1993, soltamos alguns balões. Acabamos fazendo dois piões de 42m. O primeiro, cortado pelo Paschoal da Baloema, desistimos antes de fazer, pois constatamos um erro no molde. Pedimos ao Paulinho Ícaro para cortar outro pião e, no meio da confecção, perdemos um cone do balão por causa de um cintamento errado. Sobrou para o Paulinho cortar outro cone e assim, pouco mais de um anos depois, soltamos nosso pião aqui mesmo em Santo André, na manhã do Natal de 1995.

GB
- O pião de 42m acabou tendo problemas na sua soltura e acabou subindo sem a bandeira. Vocês acham que a escolha do local foi o principal responsável pelos problemas na soltura?

TC -
(Rogério) Não. O que aconteceu foi o seguinte: O vento virou justo na hora que a bucha foi acessa. Tentamos trazer o balão, virar a bandeira mas não teve jeito. Se não virasse o vento, ele subiria tranquilamente. A bandeira era pequena para ele. Foi falta de sorte mesmo. Quanto ao campo, decidimos soltar o balão lá porque é a nossa casa. Não concordo com turmas que soltam seus balões fora da sua região. Naquela época, muitos amigos do bairro ajudaram a fazer o balão. Muitos não tinham carros para irem ver o balão em outro local. Esse balão, foi feito por todos nós, como se fosse uma espécie de projeto de toda uma comunidade, entende? Se soltássemos em outro lugar, muitos dos nossos amigos, não veriam o balão subir.

GB - Qual a opinião de vocês sobre festivais?

TC -
(Rogério) festivais foram a maior festa do balão até o momento que virou comércio. Participamos de diversos festivais, tanto em SP quanto no Rio. Realizamos somente um festival em 1996 que, por causa do mau tempo, só terminou em 1997. Só demos troféus para os primeiros colocados pois, no nosso entendimento, dar troféus para os segundos e terceiros lugares, daria muita briga pois, ninguém gosta de perder.

GB
- Resgates...

TC -
É o que acabou com os balões. É como as torcidas organizadas de futebol. Antigamente, as turmas priorizavam o balão. Acertavam os danos com a queda do balão e depois faziam um sorteio organizado. Hoje, um monte de gente briga por pedaços de papel, arame, antena, barbante, etc. Acabou a mística do balão, o encanto, a magia. Ele pode até ser necessário, mas as atitudes dos baloeiros não justificam.

GB - Gigantismo...

TC -
É necessário, com certeza. O homem precisa superar seus limites. Faz parte de cada um de nós. No nosso caso, vimos o balão da T. da Bruxa e decidimos fazer um também, mas até chegar nele, foram anos de bancada, centenas de balões até chegarmos nele. Depois dele, até pensamos em fazer um pião de 126 metros, 3 vezes maior, mas só ficou na cabeça.

GB - Boca de Ouro...

TC -
Sempre gostamos e participamos desde 1987. Ganhamos 4 no ABC e uma em SP. Mas ela acaba com muitas amizades entre as turmas. Uma coisa não podemos deixar de reconhecer. Os balões só chegaram nos níveis de hoje por causa da boca de ouro. Senão, estaríamos 10 anos atrasados.

GB
- Nível de segurança dos balões hoje de 0 à 10:

TC -
09 - Em termos de materiais. Não damos 10 porque muita turma fica devendo na confecção.

GB - Quanto tempo vocês acham que chegaremos aos 100 metros, ou seja: o balão tem limites?

TE -
Acreditamos que não. Hoje, apesar de muitas histórias mentirosas ou não, logo logo, vai subir um balão desse tamanho ou maior. Nós por exemplo, temos um projeto de um pião de 100 metros para breve. Este balão será feito em homenagem ao centenário de um grande clube de futebol e terá ajuda da sua torcida organizada. Nela por exemplo, há varios baloeiros que trabalham lá como eu (Rogerio), o Xumbinho (Ex. T. Xumbo Grosso) e o Paulada que era da saudosa Estrellar da Vila Maria.

GB
- O que vocês acham sobre os sites de balões?

TC -
É imprescindível. Só acho que deviam, assim como a GB faz, contar histórias, relembrar o passado, mostrar as origens. Hoje, a maioria não tem conteúdo, só um monte de fotos e paginas cheias de erros.

GB
- 3 turmas e 3 pessoas que merecem destaque nesses 20 anos de Turma da Caverna:

TC -
Tio Valdir, João Fogueteiro, Ademir de Ribeirão. Turmas: Bruxa (RJ), Vôo Livre (Camilópolis) e Amizade do Saudoso Zeca, no Rio.

GB - Um fato que marcou nesses 20 anos da turma?

TC -
A superação que tivemos em 1993 após o 9x9

GB
- Gostaríamos se possível, que nos passassem um resumo do pião de 42m solto em 1995:

TC -
Vamos lá: Tamanho Real: 42,10m, Molde: Tião, Turma da Bruxa - RJ, Tema: "Gênesis - A Origem do Universo", Boca: 3,9m, Bucha: 25kg, Tempo de confecção: 10 meses, Antena: 46m de flechas e varas de pesca, Cabresto: 88m - Rami, Guias: 5 laterais e um 1 central, Tamanho da bandeira: 45x56m, Data de soltura: 25/12/1995, Tempo de vôo: 13 horas e 15 minutos. Resgate: Após desfilar por São Paulo, voltar à Santo André, foi até Ribeirão Preto e caiu às 20:45 em Granja Viana, cidade próxima a Cotia na Grande São Paulo. Foi resgatado pela Turma do Morcego de Carapicuíba, mas foi levado pela polícia e não sabemos mais onde foi parar.

GB - Vocês acham que, se tivessem utilizado a nova técnica de envolver a bucha com tela de galinheiro, o Truffi de 20m não tinha queimado no final do ano passado?

TC -
Sim. O que aconteceu foi que um pedaço de bucha escorregou por uma das pernas da mesa e parou na pingadeira, fazendo com que o balão queimasse segundos após levar a última fogueteira. Se tivéssemos adotado essa técnica isso não aconteceria.

GB - Hoje, muitas pessoas acham que as técnicas de decoração são repetitivas e enjoativas. Qual a sua opinião?

TC - Hoje, a maioria das decorações nos balões são de palhaços, coringas, diabos e bruxos. Tecnicamente, são perfeitos, mas não tem alma, encanto. Antigamente, haviam pessoas que riscavam balões por prazer. Hoje, pessoas contratam profissionais, sejam grafiteiros, artistas plásticos ou tatuadores para montar seus leques. Outro exemplo são os caras que vendem projetos de balões e bandeiras. Na nossa época, quem manjava de montar leques, riscar balões, ajudavam outras turmas por prazer. Hoje, tudo virou negócio.

GB - O que vocês acham das turmas não divulgarem locais de soltura? É egoísmo ou precaução?

TC - Um pouco de cada. Por causa das leis, devemos sim tomar cuidado e avisar somente os baloeiros de confiança. Mas não deixa de ser egoísmo. Hoje, o balão é uma propriedade privada. Assim como os filmes de Hollywood, o balão deixou de ser do povo, um artesanato, não faz mais parte do nosso folclore. Essas turmas que cobram entrada, vendem camisetas, não fazem o balão por amor, por prazer. Fazem para vender ingressos, procuram recuperar o dinheiro investido no balão cobrando entrada no campo ou vendendo camisetas.

GB - Aproveitando a deixa, o que vocês pensam à respeito das turmas que cobram entrada ou vendem camisetas para que possamos ver seus balões?

TC - Hoje, não existe mais amor a arte. Fizeram do balão um negócio. Como já disse antes, ele deixou de ser uma arte para se tornar uma propriedade privada. Antigamente, fazíam convites para que todos fossem ver o balão. Tudo bem que as leis não são as mesmas, não podemos divulgar locais de soltura. Isso eu concordo que é feito para prevenir problemas. Agora, cobrar ingresso, estacionamento ou vender camisetas é ridículo. A turma já gastou o dinheiro. É um gasto que sabem que não vai voltar. É indiferente se o balão vai subir ou queimar no campo, no alto. O dinheiro foi gasto do mesmo jeito. E quando o balão não sobe? Porque não devolvem o dinheiro? Isto é injusto. outra coisa: tem turma hoje que não gosta de ajuda na soltura. Depois que dá problema por falta de gente reclama. Tem uma turma famosa, que não vamos citar o nome, que fez isso. Sabe o que aconteceu? perderam o balão porque as pessoas no campo se negaram a ajudar a segurar o painel por causa da sua ignorância, arrogância e mediocridade. Sempre ajudamos e vamos sempre ajudar quando vamos ver algum balão subir.

GB - Qual é o modelo de balão preferido por vocês?

TC - Batatão com bandeira

GB - Qual o modelo de balão que jamais fariam?

TC - (todos) do Palmeiras (Risos). Tô brincando, falando sério, independente do molde, não faríamos um balão que não tenha um significado, um objetivo.

GB - O que vocês acham que poderíamos fazer para melhorar a nossa imagem?

TC - Teríamos que montar uma comissão de baloeiros para discutir o assunto. Juntar promotores de justiça, representantes de Pólos Petroquímicos, da Imprensa, da Aeronáutica, Bombeiros, IBAMA, Polícia, etc, para discutir, debater a questão.

GB - Defina para nós o que significa: BALÂO?

TC - Balão é magia, arte. O balão nos dá o poder de voltarmos à nossa infância, de voltarmos as nossas origens, independente do tamanho.

GB - Próxima soltura e a programação do grupo...

TC -
um lapidado de 24m com bandeira em homenagem à nossa mãe (Rogerio e Edson), falecida em 2004.

GB - Espaço Livre:

TC -
A Caverna é uma turma que possui uma história singular no meio baloeiro, pois nem a falta de recursos financeiros e técnicos foram suficientes para impedir quaisquer projetos ou sonhos. Todos nossos balões, expressaram momentos, emoções e ideologias. São nossas idéias em papel se misturando com o sentimento de liberdade.

GB: A GB agradece a T. da Caverna pela entrevista e deseja à todos os seus componentes, muito sucesso nos seus próximos balões e, principalmente, na soltura do seu lapidado de 24m. Outra coisa: esperamos que realmente façam o "piãozinho" de 100 metros. Poderiam mudar o tema para o melhor time do mundo, da América, mas como sei que não vão mudar de opinião, independente do time, podem ter certeza que a comunidade baloeira vai cobrar e torcer muito por esse balão, podem esperar. Para mim, hoje, não fizemos apenas uma entrevista. Ganhamos amigos. Abraços de toda a equipe da Gazeta do Balão.

 



 
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