Colunas e artigos especiais

Uma viagem ao mundo dos sonhos


Liberdade.  Uma palavra tão fácil de entender e, ao mesmo tempo, um direito tão complicado de se exigir, porém um verdadeiro prêmio pra quem a conquista.
Num mundo tão injusto como o nosso, ter liberdade para fazer o que mais gosta é uma verdadeira vitória e essa conquista é para poucos.  Conquistar a liberdade e ao mesmo tempo ser aclamado por milhares de pessoas como artistas é muito mais raro do que se imagina e no último mês de julho, os amigos Bozzo (Progresso) e Dri (RZL), entraram para a história sendo os primeiros representantes de todos nós brasileiros no 4º Concurso Nacional de Balões de Cantoya, no México, um país grande e tão grande quanto a sua extensão é o respeito e a admiração de seu povo pelos nossos balões. Lá, balão é visto como um objeto de cultura e seus festivais param as cidades onde são realizados. Move toda a população, imprensa local e de outros estados e todos param para acompanhar os festivais.
O festival leva o nome de Globos de Cantoya em homenagem ao baloeiro mexicano Joaquín de la Cantoya que viveu em Guanajuato, outro estado mexicano no século passado. De acordo com a história, ele soltava muitos balões, mas ficou conhecido em todo o país após construir um balão de 18 metros com um cesto que levava uma pessoa como nos balões de balonismo esportivo que conhecemos. Devido a isto, ele foi convidado para ir a cada festa que havia em todo o país para mostrar seu balão.
Convidados especiais da Casa para Arte e Cultura Purépecha que fica na comunidade indígena de Uantaperakua em Paracho, município conhecido mundialmente por suas oficinas de violão e guitarra, há 158 km da capital do Estado de Michoacán, no noroeste Mexicano, Bozzo e Dri foram recebidos com honras de pop stars pela população e toda a imprensa mexicana. Sua missão era de ensinar as técnicas de confecção e soltura de balões além de contarem a todos como é a prática de soltar e confeccionar balões no Brasil.
Para contar suas aventuras, Bozzo e Dri nos receberam numa churrascaria na zona leste de São Paulo na noite do último dia 24 para contar a todos nós como foi essa fantástica aventura.
Começamos nossa entrevista perguntando lhes, como foram os primeiros contatos até a viagem ao México.

Bozzo: No começo de 2008, recebi um email do Victor, baloeiro mexicano que conhecia meu trabalho até então no Planeta Balão através dos vídeos disponíveis no You Tube. Nos primeiros contatos, Victor , 24 anos, engenheiro telefônico, me contava como era a prática no seu país e o que mais me surpreendeu foi o respeito e grande apoio do governo em todas as atividades culturais entre elas a confecção e soltura dos “globos”, como eles chamam os balões. Com o passar do tempo, fomos construindo uma grande amizade. Nessa época, Victor me disse que tinha uma grande amizade com a Maria de Lurdes, diretora da Casa de Artes e Cultura de Paracho e que havia sugerido a ela que convidasse seu amigo brasileiro para ir ao próximo festival de “globos” para ensinar aos mexicanos as técnicas brasileiras. Por estar às vésperas do Festival, infelizmente a idéia não vingou, porém no ano seguinte (2009), o projeto foi aprovado e o Victor me ligou na hora para me contar a novidade.

GB: Como foi a preparação para a viagem?
Bozzo:  A princípio íamos com outros amigos, mas por diversos problemas eles não puderam ir e fomos apenas eu e o Dri. Foram 15 dias muito corridos. Passaportes, Vistos, entrevistas no consulado, sem contar que fizemos alguns balões e bandeiras para levar. Mas deu tudo certo, fizemos as malas, levamos fotos, dvd´s, camisetas, lanterninhas, 10 balões e 5 bandeiras que fizemos e ganhamos de amigos do Brasil para serem soltos no festival. Também tivemos problemas como, por exemplo, troca da moeda, pois a única Casa de Câmbio que achamos não tinha Pesos (Moeda Mexicana) suficientes para trocar os Reais que levamos.

GB: A viagem foi traquila?
Dri: Foi nada !!! (Risos). Primeiro foi o medo do Bozzo de avião. O tempo todo ele falava que o avião ia cair. (Risos) Mas, na verdade, a nossa maior preocupação era com os balões nas malas. Tiramos as bocas, os arames das lanternas e distribuímos todos os balões nas malas entre as roupas, pois tínhamos medo de perdermos a bagagem. Cada balão foi empacotado e adesivado com o convite da festa e após 11 horas de vôo, e uma enorme turbulência, pousamos no Panamá. Na hora da escala no Panamá, ao passar as malas no Raio X, uma das malas foi parada pela Polícia Federal e com um espanhol bem fajuto, convencemos a policial que os pacotes que ela viu no Raio X eram livros. (Risos). E lá fomos nós, pegamos outro avião, depois de mais 2 horas desembarcamos no Aeroporto da Cidade do México, fomos recebidos pelo Victor e pegamos um Taxi para a Rodoviária. Passadas mais algumas horas e kilômetros, chegamos à Cidade de Paracho, onde fomos direto para a Casa de Cultura.

A chegada na Secretaria de Cultura

A viagem foi bastante longa e cansativa, conta Dri. Assim que chegamos, fomos direto para a Secretaria de Cultura e fomos recebidos pela Maria de Lurdes, a diretora da Casa de Cultura na qual iríamos depois. Ficamos numa sala falando com algumas pessoas até a hora que nos chamaram para outra sala. Chegando lá levamos um enorme susto. Não era uma sala, era uma espécie de auditório e estava lotada de pessoas, imprensa câmeras e repórteres. Sentamos numa mesa e começamos a responder as perguntas dos repórteres.
Tinha gente de todo o país, completa Bozzo. Emissoras de TV transmitindo ao vivo, Rádio, Jornais e na maioria das perguntas, eles queria saber o porquê que soltar balões no Brasil era crime.

Os primeiros dias na cidade

A cidade era bem pequena. Ficava no meio das montanhas e era fascinante, diz Dri. Assim que chegamos fomos comer o famoso Taco, uma espécie de panqueca apimentada muito tradicional no país.
Foram dias bastante corridos, completa Bozzo. Todos os dias tinham dezenas de coisas a fazer e, em todo momento, aparecia um balão subindo de algum ponto da cidade. É fascinante! Jamais pensamos que através do balão, uma paixão tão grande que temos e ao mesmo tempo nos traz tantos problemas, teríamos a oportunidade de uma aventura como essa. Aqui somos marginais e lá artistas. Derrepente você sai do seu país, viaja horas, milhares de quilômetros e vai para um lugar que ninguém te conhece, ninguém entende o que você fala, mas todos te admiram pelo que você faz. Isso não tem preço, é maravilhoso, conta Dri. A cidade era linda. Muitas coisas nos chamaram a atenção, mas a principal era que eles valorizam muito sua cultura e suas origens. Você não via um papel no chão, uma criança pedindo esmolas, nada. A água e a energia elétrica vinham dos Estados Unidos, lá não tem hidrelétrica e por isso, era caro e todo mundo sabia racionar. Tivemos que tomar banho de garrafinha de coca cola, pois a água era muito fraca e não subia pro chuveiro. Mas era uma cidade e um povo maravilhoso, educado e com certeza, voltaremos e continuaremos a amizade e carinho por todos, completa Bozzo.


Workshops

Durante os dias do festival, a Casa para Arte e Cultura Purépecha, realizou pequenos cursos (Workshops) para ensinar  diversas turmas de jovens a adultos como confeccionar  os balões e Bozzo e Dri, foram os “professores” do pessoal.
Foram 3 dias de workshops, conta Bozzo. Tivemos turmas de 20 alunos. Ensinamos a tirar moldes com escala, calcular os tamanhos, colar as folhas, fechar os balões. Eles fizeram um Pião e uma Bagdá de meio metro cada um. Explicamos também como se faz a bucha, pois eles soltavam seus balões apenas com pedaços de panos embebidos com gasolina, completa Dri. Também enchiam os balões com ventilador. Imagina o susto que você tem ao ver um monte de balões cheios na praça e derrepente aquele barulhão do fogo pegando na gasolina. (risos). Explicamos a importância de utilizar bocas de arame (alguns fazem de madeira), maçaricos, cintamentos, respiros, pois eles não utilizavam nada disso, além de não se preocuparem com o vento. Imagina como é você ver balões de 12, 18 metros subindo nessas condições. A maioria subia e explodia no alto.
Também aconselhamos a soltarem balões com a identificação da turma na boca, como resgatarem os balões corretamente e como escolher o melhor dia para soltar, completa Bozzo.

Os primeiros balões

Quando chegamos à Secretaria de Cultura já no primeiro dia, já vimos alguns balões subirem. Durante todo o festival, a maioria dos balões eram os pontudos, estrelas e sputiniks como alguns baloeiros conhecem aqui no Brasil, conta Dri. Lá era muito organizado. O campeonato era dividido e 4 categorias de acordo com o número de folhas utilizadas para a construção do balão:
Categoria A = 50 a 150 folhas
Categoria B = 151-350 folhas
Categoria C = ilimitado
Categoria D = Criatividade

O governo apoiava tudo e dava prêmios de 5000 a 10000 Pesos, cerca de 3500 Reais para os vencedores. Assim como no Brasil, havia diversas turmas e subiram mais de 100 balões durante todo o festival.

Resgates

Imagina como é a sensação de soltar um balão numa praça lotada com total liberdade? É fascinante conta Bozzo e Dri. Mas pra quem sabe da história dos 2 sabe que eles não se contentariam apenas em soltar um monte de balões. Tinham que resgatá-los não é verdade?  Na primeira noite em Paracho, soltamos um caixinha de 16 folhas com umas lanterninhas, conta Dri. O tempo lá era tão maravilhoso que ele subiu, subiu, subiu na cabeça e apagou descendo bem perto de onde soltamos. Fomos atrás a pé mesmo.  Cada um foi para um lado e quando cheguei, encontrei o Bozzo sozinho segurando o balão, conta Dri.
Tivemos muitas aventuras conta Bozzo. Pegamos muitos balões, inclusive os 2 melhores do festival. Um dos melhores foi um pontudo preto de 12 metros da turma Nova Geração. Imagina que engraçado ver o Bozzo, barrigudinho, cansado correndo de chinelos no meio de uma feira atrás do balão. Eu,(Dri) também estava a pé mas no caminho encontrei o Victor e o Miguel  e pedimos carona para umas “minas” que também estavam atrás do balão com uma “puta” picape. Passamos o gordinho e pegamos o balão dentro de uma escola. Teve outro que eu estava a pé e o Bozzo passou de bicicleta e pegou o balão. Só não me pergunte de quem era a bicicleta porque nem eu sei, diz Bozzo. (Risos) Outra história fascinante foi atrás de outro balão que desta vez, tinha 18 metros. Ele caiu numa casa e eu (Dri), pulei o muro e peguei o balão, mas ele queimou. Na hora de ir embora, a dona da casa apareceu e não me deixou pular o muro. Ela disse para que eu saísse pela porta da casa e ainda me deu um monte de uvas que ela tinha em sua parreira no quintal. Ma tratou super bem, na saída todos me cumprimentaram. Agora imagina se fosse assim no Brasil? (Risos)


Os Putones


A dificuldade em entender o Espanhol era tão grande quanto a deles em entender nosso português, ainda mais com as nossas gírias, diz Bozzo. Aqui no Brasil, os amigos mais chegados do Dri o chamam de Putão. Como estávamos no México, eu inventei o Putone e vivia chamando o Dri de Putone, conta Bozzo. Teve uma hora que o Victor nos chamou de canto e disse: “Poxa Dri, você é tão legal, inteligente, bonito (Eca!!!), por que és um Putone?” – Ninguém entendeu nada, até que Victor explicou que Putone no seu país era homem que gostava de homem. Cara, isso foi muito engraçado, conta Dri. Éramos taxados de gays sem saber e ainda achávamos que estávamos arrasando (Risos).

 

Considerações Finais

Estar num país com costumes diferentes, língua diferente, comidas diferentes e mesmo assim estar feliz por ser livre não tem preço, contam os dois. A sensação de liberdade, de poder soltar seus balões numa praça lotada, de dar dezenas de entrevistas, serem aclamados, respeitados e tratados como artistas é praticamente impossível de descrever. Poucos aqui em nosso País tiveram essa sensação de poder soltar seus balões na rua, ter os amigos, vizinhos ajudando e todos gritarem com alegria quando nossos juninos subiam. Não importa se a culpa por serem proibidos é de nós mesmos. A importância desta viagem dos nossos amigos não é só pra vida deles e pra todos os mexicanos que o receberam tão bem. O que devemos aprender com tudo isso é que balão pode ser taxado como crime no nosso país, mas mesmo os mais conservadores policiais, juízes e políticos vão sempre continuar sorrindo ao ver nossas estrelas de papel. Essa aventura prova que o que muitos de nós consideramos “pouco” para muitos, inclusive los hermanos del Mexico, é muito, muito mais do que eles poderiam imaginar. Se lá o governo incentiva e apóia, que eles se espelhem em nossa história para não fazer do balão no futuro uma arte que , assim como no Brasil, é uma eterna briga entre a proibição e o fascínio.

Gostaria de agradecer aos meus amigos Carlos Alamino (Bozzo) e Adriano Colombo pela recepção, amizade e por nos dar essa oportunidade de conhecer suas aventuras nos representando tão bem fora de nosso país. Vale lembrar que dias 17 e 18 de outubro, os dois vão se juntar com os amigos Preto (Oxy – PR) e Renê (Brasa- RJ) para mais uma aventura na terra do Taco Apimentado, desta vez no Festival de Globos de Cantoya em Gualupita, Cidade do México. Vamos conferir !!!

 

Confira algumas fotos da viagem

Confira os vídeos:

Participe e dê a sua opinião

Nome:

Turma:

Mensagem:
 

Confira o site oficial do evento: www.globosdecantoya.com

 
Home | Galeria de Fotos |  Boca de Ouro |  Moldes  |  Política e Termos de Uso  |  Cadastro  |  Fale Conosco |  Envie suas fotos
gazetadobalao@yahoo.com.br