Os primeiros dias na cidade
A cidade era bem pequena. Ficava no meio das montanhas e era fascinante, diz Dri. Assim que chegamos fomos comer o famoso Taco, uma espécie de panqueca apimentada muito tradicional no país.
Foram dias bastante corridos, completa Bozzo. Todos os dias tinham dezenas de coisas a fazer e, em todo momento, aparecia um balão subindo de algum ponto da cidade. É fascinante! Jamais pensamos que através do balão, uma paixão tão grande que temos e ao mesmo tempo nos traz tantos problemas, teríamos a oportunidade de uma aventura como essa. Aqui somos marginais e lá artistas. Derrepente você sai do seu país, viaja horas, milhares de quilômetros e vai para um lugar que ninguém te conhece, ninguém entende o que você fala, mas todos te admiram pelo que você faz. Isso não tem preço, é maravilhoso, conta Dri. A cidade era linda. Muitas coisas nos chamaram a atenção, mas a principal era que eles valorizam muito sua cultura e suas origens. Você não via um papel no chão, uma criança pedindo esmolas, nada. A água e a energia elétrica vinham dos Estados Unidos, lá não tem hidrelétrica e por isso, era caro e todo mundo sabia racionar. Tivemos que tomar banho de garrafinha de coca cola, pois a água era muito fraca e não subia pro chuveiro. Mas era uma cidade e um povo maravilhoso, educado e com certeza, voltaremos e continuaremos a amizade e carinho por todos, completa Bozzo.
Workshops
Durante os dias do festival, a Casa para Arte e Cultura Purépecha, realizou pequenos cursos (Workshops) para ensinar diversas turmas de jovens a adultos como confeccionar os balões e Bozzo e Dri, foram os “professores” do pessoal.
Foram 3 dias de workshops, conta Bozzo. Tivemos turmas de 20 alunos. Ensinamos a tirar moldes com escala, calcular os tamanhos, colar as folhas, fechar os balões. Eles fizeram um Pião e uma Bagdá de meio metro cada um. Explicamos também como se faz a bucha, pois eles soltavam seus balões apenas com pedaços de panos embebidos com gasolina, completa Dri. Também enchiam os balões com ventilador. Imagina o susto que você tem ao ver um monte de balões cheios na praça e derrepente aquele barulhão do fogo pegando na gasolina. (risos). Explicamos a importância de utilizar bocas de arame (alguns fazem de madeira), maçaricos, cintamentos, respiros, pois eles não utilizavam nada disso, além de não se preocuparem com o vento. Imagina como é você ver balões de 12, 18 metros subindo nessas condições. A maioria subia e explodia no alto.
Também aconselhamos a soltarem balões com a identificação da turma na boca, como resgatarem os balões corretamente e como escolher o melhor dia para soltar, completa Bozzo.
Os primeiros balões
Quando chegamos à Secretaria de Cultura já no primeiro dia, já vimos alguns balões subirem. Durante todo o festival, a maioria dos balões eram os pontudos, estrelas e sputiniks como alguns baloeiros conhecem aqui no Brasil, conta Dri. Lá era muito organizado. O campeonato era dividido e 4 categorias de acordo com o número de folhas utilizadas para a construção do balão:
Categoria A = 50 a 150 folhas
Categoria B = 151-350 folhas
Categoria C = ilimitado
Categoria D = Criatividade
O governo apoiava tudo e dava prêmios de 5000 a 10000 Pesos, cerca de 3500 Reais para os vencedores. Assim como no Brasil, havia diversas turmas e subiram mais de 100 balões durante todo o festival.
Resgates
Imagina como é a sensação de soltar um balão numa praça lotada com total liberdade? É fascinante conta Bozzo e Dri. Mas pra quem sabe da história dos 2 sabe que eles não se contentariam apenas em soltar um monte de balões. Tinham que resgatá-los não é verdade? Na primeira noite em Paracho, soltamos um caixinha de 16 folhas com umas lanterninhas, conta Dri. O tempo lá era tão maravilhoso que ele subiu, subiu, subiu na cabeça e apagou descendo bem perto de onde soltamos. Fomos atrás a pé mesmo. Cada um foi para um lado e quando cheguei, encontrei o Bozzo sozinho segurando o balão, conta Dri.
Tivemos muitas aventuras conta Bozzo. Pegamos muitos balões, inclusive os 2 melhores do festival. Um dos melhores foi um pontudo preto de 12 metros da turma Nova Geração. Imagina que engraçado ver o Bozzo, barrigudinho, cansado correndo de chinelos no meio de uma feira atrás do balão. Eu,(Dri) também estava a pé mas no caminho encontrei o Victor e o Miguel e pedimos carona para umas “minas” que também estavam atrás do balão com uma “puta” picape. Passamos o gordinho e pegamos o balão dentro de uma escola. Teve outro que eu estava a pé e o Bozzo passou de bicicleta e pegou o balão. Só não me pergunte de quem era a bicicleta porque nem eu sei, diz Bozzo. (Risos) Outra história fascinante foi atrás de outro balão que desta vez, tinha 18 metros. Ele caiu numa casa e eu (Dri), pulei o muro e peguei o balão, mas ele queimou. Na hora de ir embora, a dona da casa apareceu e não me deixou pular o muro. Ela disse para que eu saísse pela porta da casa e ainda me deu um monte de uvas que ela tinha em sua parreira no quintal. Ma tratou super bem, na saída todos me cumprimentaram. Agora imagina se fosse assim no Brasil? (Risos)
Os Putones
A dificuldade em entender o Espanhol era tão grande quanto a deles em entender nosso português, ainda mais com as nossas gírias, diz Bozzo. Aqui no Brasil, os amigos mais chegados do Dri o chamam de Putão. Como estávamos no México, eu inventei o Putone e vivia chamando o Dri de Putone, conta Bozzo. Teve uma hora que o Victor nos chamou de canto e disse: “Poxa Dri, você é tão legal, inteligente, bonito (Eca!!!), por que és um Putone?” – Ninguém entendeu nada, até que Victor explicou que Putone no seu país era homem que gostava de homem. Cara, isso foi muito engraçado, conta Dri. Éramos taxados de gays sem saber e ainda achávamos que estávamos arrasando (Risos).
Considerações Finais
Estar num país com costumes diferentes, língua diferente, comidas diferentes e mesmo assim estar feliz por ser livre não tem preço, contam os dois. A sensação de liberdade, de poder soltar seus balões numa praça lotada, de dar dezenas de entrevistas, serem aclamados, respeitados e tratados como artistas é praticamente impossível de descrever. Poucos aqui em nosso País tiveram essa sensação de poder soltar seus balões na rua, ter os amigos, vizinhos ajudando e todos gritarem com alegria quando nossos juninos subiam. Não importa se a culpa por serem proibidos é de nós mesmos. A importância desta viagem dos nossos amigos não é só pra vida deles e pra todos os mexicanos que o receberam tão bem. O que devemos aprender com tudo isso é que balão pode ser taxado como crime no nosso país, mas mesmo os mais conservadores policiais, juízes e políticos vão sempre continuar sorrindo ao ver nossas estrelas de papel. Essa aventura prova que o que muitos de nós consideramos “pouco” para muitos, inclusive los hermanos del Mexico, é muito, muito mais do que eles poderiam imaginar. Se lá o governo incentiva e apóia, que eles se espelhem em nossa história para não fazer do balão no futuro uma arte que , assim como no Brasil, é uma eterna briga entre a proibição e o fascínio.
Gostaria de agradecer aos meus amigos Carlos Alamino (Bozzo) e Adriano Colombo pela recepção, amizade e por nos dar essa oportunidade de conhecer suas aventuras nos representando tão bem fora de nosso país. Vale lembrar que dias 17 e 18 de outubro, os dois vão se juntar com os amigos Preto (Oxy – PR) e Renê (Brasa- RJ) para mais uma aventura na terra do Taco Apimentado, desta vez no Festival de Globos de Cantoya em Gualupita, Cidade do México. Vamos conferir !!!
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